MAIS DO QUE PALAVRAS

passeio sozinha no jardim das traseiras do mundo
sinto o cair da noite pesar-me na alma vazia
faço um esforço para me erguer do fundo do meu desalento
tremo de frio da vida que me espera além desta esquina ferida
acaricio a minha pouca esperança ao de leve e digo alto que a manhã me há-de mostrar o caminho

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ao entardecer
desta amargura
apanhei
quinze barcos
para longe
de todos os tempos
e só ficou foi a névoa
de querer abrir-me
em beijos
e sussurrar
ao mar
e ao teu peito
que nada me separa
do desejo
de te viver.

POR DENTRO

O vento lá fora estremece a noite
A chuva bate com força no alpendre
Enches os copos
As velas vão-se consumindo lentamente
Partilhamos um cigarro
Contas-me outra vez a minha história preferida
Abraço-te com o olhar
Adivinho o toque da tua mão e arrepia-se-me a pele

A MAIS DITA

A areia que o vento me trouxe
não me impede de ver o mar
só torna mais salgada a vida que recordo
Doem-me os olhos de a areia querer entrar
Dói-me a saudade de não ter querido

QUERES SAIR?

Passar a tarde inteira a escrever-te, aqui, o que havia de ser a vida. quando acabar a manhã, logo vejo se cá fico ou se te conto só depois o que de lá se vê. Queres que te conte como te conheci? Queres que te mostre a flor que imprimi por dentro, sem cor, sem pressa, minuto a minuto, esta manhã?
Se eu te disser só que te amo, achas que a história é curta?



Como se fosse outra, lembrei-me de te visitar. Cresceu a rua, doeu-me cada passo até este aqui onde ficaste.
Preferia que não estivesses; gostava mais de te saber vivo.
Dei uma festa cá dentro, ninguém veio. Só tu que já cá estavas.

OUTRA VEZ

Nado num imenso desaguar. E a areia não me conforta.
Temo pelo adeus e temo pelo fica cá.
Esbracejo à costa e despejo-me.
Nada, digo eu, nada.

De que serve não chorar e para quê não mentir e não sorrir demais?

Vou partir o barco que me leva a esperança.
Vou embora de mim outra vez.
Vou em vão.

CÁ SE VAI ANDANDO

As palavras de amor já morreram.
Já só há letras perdidas sem esperança e sem saber.
O amanhã não vem.
Temos de viver este hoje eterno.
E continuar a fingir que não faz mal.
Vive-se o jogo, perde-se o destino, irreversivelmente.
Mas não se chora.
As lágrimas já morreram.
Já só há gotas centesimais da nossa dor que se deixam cair inconsequentemente.

QUE COISA ESTRANHA

Fiquei sem voz de pensar alto em ti.
Olhei a toda a volta e devorei o ar.
Dormi três noites e três dias sem parar.
E voei todo o espaço à volta do que nos envolvia.
Não queria deixar memória nenhuma à solta.

Cortei rente o esforço e lancei-me na procura de outro dia.
Mal te encontrava aí fechada.
Mal te via com esses olhos.
Assim disfarçada.
Era o amor que me impedia de te ter
Que coisa estranha, dizias.

E eu expliquei-te que nem sempre a vida é simples.
Às vezes é preciso esperar muito até a felicidade vir correr ao nosso lado.

E SE O RIO

que corre dentro de mim, de baixo para cima,
fosse o mesmo que corre
à volta do mundo num abraço que inventei.

E se nunca morresse
a água, nem a sede,
nem a palavra
que nasce em gota
e solta livre cada dor e cada traço de vida.
E se eu me acorrentasse a esta liberdade
e não voltasse a sair do leito quente do meu rio.
Tudo o que te digo é irrelevante perto do calor que faz aqui.
E as palavras
só refrescam a verdade da água a passar.
Tudo o que te digo
sou eu própria,
sem que saiba, irrelevante
como um seixo num rio que nem é meu
nem é inventado.

SEGREDOS DE OUVIDO

Eu não sei como te hei-de contar.
É um segredo bem guardado.
Não queres entrar?
Vem ouvir o mar dentro do meu ouvir.
Não sei contar, sei só dizer.
Ir dizendo, sem compromisso e sem nisso meter grande intenção.
Foge-me o medo de fugir quando olho para tanta letra que se quer escrever. Tanto querer.
Tanto querer que me quer ter e eu a fugir da fuga e do medo de não ir e digo só que não sei.
É melhor vires tu.
É melhor sentares-te aqui na berma do meu passar adiado.
Podemos fazer hojes e ver a mesma luz varada pelo mesmo sim, pelas mesmas verdades.
Se eu te disser que morri no dia ontem do mês que passou,
não vais acreditar em quem te toca e partes em silêncios.
Apareceu um dia um cão e nem ladrou de sentir frio do arrepio de te ver nessas ausências.
Era eu, se acreditas.
Deixei-te a marca de nunca te ter mordido nem de amor.
Eu sei.
Eu nunca soube contar.